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AINDA ESTAMOS AQUI...

Em 2020, dentro da pandemia, a nossa companheira Helena Lima nos brindou com um texto para o blog. Agora, em 2025, pedimos para publicar novamente o texto de 2020. Mas a Helena nos ofereceu um novo e precioso texto: “Ainda estamos aqui”.


Leia o “Ainda estamos aqui”. Helena nos faz uma série de indagações e reflexões. Você, que ainda está aqui conosco, ofereça seu comentário para o Blog dos Intercambiantes.


A equipe do Blog


 

Em 2025 o clima está inclemente como nunca. Enchentes, calor brutal, oscilações de até dez graus acima da média para a época... e, no entanto, a vida segue célere, intercalando atividades presenciais e virtuais, numa nova dimensão de temporalidade mais adoecida do que saudável. Ficou naturalizado fazer várias coisas simultaneamente, assim como estar sempre 100% disponível nas redes sociais. Sequelas da pandemia.


As telas seguem firmes, com sua inerente ambivalência. Ao mesmo tempo em que capilarizam ações coletivas e permitem interações em diferentes estados e continentes não são a presença em si. A lembrança da pandemia de COVID-19 mal aparece no dia-a-dia.

Quem se lembra da ansiedade para tomar vacina, das voltas para casa para pegar máscaras esquecidas, os diferentes instantes que nos marcaram tanto? As perdas, os não velórios (ou velórios pelo Zoom), os medos. Tantos medos!


Toda a transição do isolamento para a retomada da convivência, o álcool em gel, a dificuldade em saber a hora de tirar a máscara, tudo isso ficou sabe-se lá em que lugar. Parece que todo mundo tirou férias e de repente voltou para a rotina de idas e vindas. Sabemos muito bem que existe algo chamado Stress Pós-Traumático; sabemos que existe o trabalho do Luto. Mas parece que, ao se retornar a vida cotidiana tudo isso se esvaiu, virou fumaça! E percebemos que essa retomada trouxe alegrias mas também dificuldades.


Para onde foram os traumas, sofrimentos e situações dificílimas vivenciadas na pandemia? Quando, como e com quem se falou a respeito? Cada um “engoliu o choro e seguiu”? Diversos grupos terapêuticos vêm trabalhando com o luto da pandemia. Em formato de roda de conversa, de sessão terapêutica, de palestras e lives, muitos profissionais estão se dedicando a retomar o cuidado com a saúde mental começando por essa elaboração de luto. Bem ao estilo da psicanalista Piera Aulagnier: Construir-se um passado com os olhos do presente, com vistas ao futuro.


Se naquele momento precisávamos ficar isolados, passamos medo, tivemos perdas, dificuldades financeiras, hoje podemos afirmar que conseguimos sobreviver. Usamos nossos lifestraws já conhecidos e criamos novos. E é essencial realizar o árduo trabalho do luto, revisitar os traumas, simbolizar tudo aquilo que foi vivido na carne. Sigamos firmes, com novos recursos, novos amigos, velhos ideais recauchutados, novos aprendizes ocupando importantes espaços.


Que tenhamos sempre um lifestraw, concreto ou metafórico, para que possamos ter o essencial acessível. Água, amor, saúde, inspiração, projetos, solidariedade. Afinal... Ainda estamos aqui!


Lifestraw é um canudo gorduchinho, parecido com uma flauta doce. Dentro dele, filtros ultrapotentes, que permitem que se sorva água potável mesmo de dentro de um pântano. É utilizado pelo Mossad em treinamentos de campo e utilizei também quando coordenei um projeto na África (Lima & Dunker, 2023). De uma noite para um dia, ouvimos que havia um novo vírus nos afetando. Abriu-se uma cratera entre a vida tal qual estava sendo vivida (vida presumida) e a vida que precisaria ser vivida em função desse novo estado de coisas. Um luto pela perda da liberdade acrescido de muito medo e proximidade explícita da morte. Os adoecimentos psíquicos fizeram triplicar os atendimentos via virtual, o consumo de psicoativos e medicamentos, uma fase tão intensa quanto traumática. Divisões claras: quem tem condições, isolamento; quem não tem condições, segue em público, vulnerável, exposto. Todas as pessoas do mundo tiveram que pensar na vida, fazer escolhas, contas, avaliações, decisões, tudo em meio a uma incrível insegurança: "tempo indeterminado". Todos precisaram se deparar com os próprios anjos -- e com os próprios demônios -- e buscar recursos para enfrentá-los. Iniciativas solidárias entremeadas com momentos de insegurança e oscilação solicitando reformulações constantes. Cada um de nós solicitado a ter, construir ou adquirir seu Lifestraw. E sobreviver, priorizando o essencial.
Lifestraw é um canudo gorduchinho, parecido com uma flauta doce. Dentro dele, filtros ultrapotentes, que permitem que se sorva água potável mesmo de dentro de um pântano. É utilizado pelo Mossad em treinamentos de campo e utilizei também quando coordenei um projeto na África (Lima & Dunker, 2023). De uma noite para um dia, ouvimos que havia um novo vírus nos afetando. Abriu-se uma cratera entre a vida tal qual estava sendo vivida (vida presumida) e a vida que precisaria ser vivida em função desse novo estado de coisas. Um luto pela perda da liberdade acrescido de muito medo e proximidade explícita da morte. Os adoecimentos psíquicos fizeram triplicar os atendimentos via virtual, o consumo de psicoativos e medicamentos, uma fase tão intensa quanto traumática. Divisões claras: quem tem condições, isolamento; quem não tem condições, segue em público, vulnerável, exposto. Todas as pessoas do mundo tiveram que pensar na vida, fazer escolhas, contas, avaliações, decisões, tudo em meio a uma incrível insegurança: "tempo indeterminado". Todos precisaram se deparar com os próprios anjos -- e com os próprios demônios -- e buscar recursos para enfrentá-los. Iniciativas solidárias entremeadas com momentos de insegurança e oscilação solicitando reformulações constantes. Cada um de nós solicitado a ter, construir ou adquirir seu Lifestraw. E sobreviver, priorizando o essencial.

 

 

Nota:


Este texto foi originalmente escrito e publicado em sexta-feira, 8 de maio de 2020, em meio à pandemia de COVID-19.

 

Referências bibliográficas:


  1. Lima, H. M. M., & Dunker, C. I. L. (2023). Escuta psicanalítica nos países da África lusófona. Percurso, 70(1), 47–58. Recuperado de https://percurso.openjournalsolutions.com.br/index.php/ojs/article/view/1425


 

Sobre a autora:


Helena Lima: Psicanalista. Aspirante a membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (SP). Pós-doutora em Educação: Psicologia da Educação; Mestre em Psicologia Social e psicóloga pela PUC-SP; pós-doutoranda e PhD em Saúde Pública; bióloga pela USP. Pesquisadora do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (LATESFIP – USP). Docente de Psicopatologia Psicanalítica no curso de pós-graduação em Psicanálise e Saúde Pública da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Contato: +55 11 98332-1234 | E-mail: helena.lima@sedes.org.br

 
 
 

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1 Comment


Ótima reflexão da Helena. Realmente tudo tao acelerado atualmente, que atropelamos tudo contribuindo para um adoecimento . Fiquei com a pergunta do texto: Para onde foram os traumas, sofrimentos e situações dificílimas vivenciadas na pandemia? Esse real que assolou a todos não passa impunimente. Quais os efeitos em cada um de nós e o que fazer com isso?

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